Sem-nome-02

Isabel 01

Meus passeios matinais sempre acabam na mesma livraria. A livraria que meu pai me levava quando eu era criança. Amo tudo lá. A ordem dos livros, o cheiro, e as pessoas. Como dizem, sou a cliente mais fiel deles. Lá é quase como um pedaço meu e do meu pai. Dentro da livraria, tem uma cafeteria onde sempre tomo meus cafés da manhã. Já conhecem até meu gosto, já tenho até um “de sempre”.
Era um dia qualquer, eu ia tomar meu café da manhã e seguir pra editora, fazer meu trabalho. Me sentei no balcão e aguardei minha bebida, abri um livro e comecei a folheá-lo. Senti que estava sendo observada, mas continuei fazendo com o que fazia. Meu café chegou, troquei algumas palavras com a senhora que o trouxe, rimos um pouco. E então, involuntariamente, percorri o local com meu olhar. A vi de relance. Minha amiga chegou, tomou café comigo e seguimos pra editora.
Meu dia na editora é sempre muito corrido. Tenho que revisar textos e mais textos… Mas amo meu trabalho. Graças a meu pai, eu nunca consegui ficar longe dos livros… Seja lendo-os ou editando-os, ou os dois ao mesmo tempo. Chega a ser quase um passa-tempo, ao contrário de um trabalho. Quando acaba o expediente, vou pra casa e toco um pouco de violão ou faço algo para me distrair.
Assim são a maioria dos meus dias. Algumas pessoas não gostam de rotina, mas eu adoro a minha. É como dizem: ‘Escolha um algo que você ame, e você nunca terá que trabalhar’. Por mais que eu adore meus livros, meu violão é minha paixão. Sempre que tenho algum tempo disponível, estou grudada nele treinando algumas músicas ou só passando o tempo. Adoro tocar MPB e pop-rock. Me arrisco cantando também, mas não consigo me ver como uma boa cantora. Um dia, enquanto eu passava em frente do barzinho perto do meu apartamento, fui parada por um cara. Ele me perguntou se eu sabia quem ficava cantando de noite no prédio, e logo percebi que se tratava de mim. Disse que eu era a menina que cantava e até pedi desculpas se isso o atrapalhava. Mas ele era o dono do barzinho e só queria saber quem que ficava cantando porque queria chamar pra cantar no lugar. Minha primeira proposta de cantora. Aceitei na hora.
O primeiro dia foi complicado. Achei que não ia ficar ansiosa ou nervosa, mas acabei ficando, é claro. Havia chamado alguns amigos para me assistir e me darem força, ainda bem! Eles tentaram ao máximo me deixar calma e acabei relaxando um pouco. Comecei o show com uma música nacional e fiquei intercalando com algumas internacionais. No final, o pessoal gostou bastante! Inclusive o pessoal do bar. Perguntaram se eu podia cantar ali algumas sexta-feiras do mês e eu aceitei. Com o tempo, ficou rotineiro. Eu tinha até meu próprio público. Mas o nervosismo nunca ia embora.
Era uma sexta-feira e eu iria cantar, me pediram algo diferente e decidi arriscar com os rocks dos anos 80. Escolhi um repertório legal, me arrumei, algo casual e fui pro bar. Comecei os preparativos e tomei uma cerveja, corri meus olhos pelo bar e encontrei um rosto conhecido. Mas isso era normal. Deu minha hora, fui pro palco e comecei a cantar. Cantar sempre me distrai muito, é quase como uma viagem interna. Segui com as músicas que havia selecionado e então lembrei de onde a conhecia. Da livraria.
A noite foi passando, mas eu continuei a acompanhá-la com os olhos. A vi conversando com algumas mulheres, todas muito bonitas. E por fim, a vi saindo acompanhada do bar. Tentei não criar caso, afinal conversamos uma vez e mesmo assim, nem sabia seu nome. Mas não pude evitar de olhá-la a noite toda… E perceber o quanto ela era bonita. Uma beleza diferente. Mas ainda muito bonita. Cabelos curtos e negros, um corte despojado que valorizava seu rosto pequeno e mesmo assim, chamava atenção de quem passasse perto. Ela sabia que recebia olhares, tanto de homens quanto de mulheres, mas isso não parecia incomodá-la. Algo me dizia que ela já havia se acostumado com isso e encontrado uma maneira de trabalhar a seu favor. Ela transpirava confiança e essa era minha parte favorita nela.
Acabou a noite, fui pra casa descansar. Acordei de manhã, vesti algo confortável e desci pra livaria, tomar meu café e ler um pouco.
Ela estava lá.

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Waiting for you

Ás vezes, eu fico triste porque a pessoa é vítima de modinhas. Ela não tem nada de especial, eu saio por aí e já encontro vinte igual
Gostam das mesmas coisas, ouvem as mesmas músicas, assistem ao mesmo canal. Assim tudo fica banal
Eu fico à espera, à procura de algo diferente, alguém que me chame atenção… Vou buscando de coração em coração
As pessoas mais especiais são aquelas que nunca sabem. Não se sabe que é diferente, porque não tem nada a comparar
E só por terem esse conceito, elas já são diferentes, especiais e únicas. Um rabisco n’alma de quem as encontram que não termina nunca
E por fim, sua alma fica toda rabiscada, influenciada e mudada por essas pessoas que você conhece no caminho
Algumas te deixam na metade, outras te acompanham desde o ninho
Mas no final, você sempre termina sozinho
Sozinho.

Sem-nome-01

Sophia 01

Era um dia qualquer, levantei, tomei meu café e sai pelas ruas da cidade. Não procurava nada além da minha paz que eu só encontrava quando abria um livro aleatório. Ali sempre foi meu lugar. Então eu sempre acabava em alguma livraria de esquina, pescando um livro ou outro. Até que a vi. Nunca acreditei em amor à primeira vista, ainda não acredito. Mas não posso negar que houve uma conexão, daquelas de filme mesmo. (Oh não, eu me tornei aqueles clichês de filmes românticos de fim de tarde)
A ouvi conversando com uma amiga, e descobri seu nome. Isabel. Mas pra mim, já era Bel. Notei o livro que ela em suas mãos, com alguns post-its, sugerindo algumas anotações. Também notei os livros que ela escolhia. Notei ela me notando. Notei meu rosto ruborizando. Mas ela foi embora. Seguiu seu caminho, segui o meu.
Cheguei em casa com meu alarme natural apitando. Eu não podia cair nessa de novo, não tava preparada pra cair nessa de novo, eu não queria cair. Involuntariamente (ou não) meus pés me levaram pr`aquela mesma livraria do dia anterior. E eu encontrei a mesma menina do dia anterior. Encontrei uma poltrona no lugar, me sentei e fiquei observando-a. Ela também estava com a mesma amiga. E hoje, ela ria. Ria sem parar. Aquela risada que enche o lugar, aquela risada que te faz querer rir junto. É claro que ela me notou de novo, tentei disfarçar mas num piscar de olhos, ela já sentava na poltrona ao meu lado.
Abriu um livro como quem não quer nada, e eu tentei concentrar no meu. Mas eu sentia seu olhar em mim, sentia o calor. Enrolei mais um pouco, acabei não resistindo. Deixei o livro de lado e disse oi. Ela me olhou e sorriu. Naquele instante, eu descobri que queria todos os seus sorrisos só pra mim. Trocamos algumas palavras sobre o livro que ela lia, nada demais, nada encantador, mas encantei mesmo assim. Mais uma vez, seguimos caminhos diferentes.
Uma semana se passou. Eu não a vi. Mas é claro que eu fiquei pensando nela, lembrando de como seu rosto se iluminava quando sorria, de como ela gostava de enrolar uma mecha de cabelo nos dedos enquanto lia e de como ela tentava prestar atenção em tudo ao seu redor. Mas no final, tudo ao seu redor prestava atenção nela. Aqueles cabelos castanhos, olhos cor-de-mel, pele branquinha… Ela conseguia o olhar de todos. Mais que isso. Ela conseguiu meu olhar, minha mente… Por dias!
Sentei à frente do meu notebook, tentando escrever algo que afastasse meus pensamentos d`ela. Escrevi meia dúzias de palavras, um poema aqui, outro ali. Até que as palavras começaram a fluir de um jeito que nunca fluíram antes, era como se meus dedos tivessem vontade própria, e eu nem notei quando escrevia. Quando terminei, voltei pra revisar, pra absorver aquelas palavras. Todas eram sobre ela. Sobre como o cabelo dela brilhava quando encontrava raios de sol, sobre os pequenos olhos, que ficavam ainda menores quando ela ria. Senti tremores nas minhas mãos, senti meu sangue ferver. Apaguei tudo.
Tudo que eu mais temia, tudo que eu evitava. Sempre desprezei autores que baseavam suas histórias em musas. Isso os faziam fracos. Dependentes de algo pra criar. É claro que precisamos de inspiração, mas isso nunca pode depender de outro alguém além de si mesmo. Nossas histórias não podem depender de terceiros, de terceiros que nem querem fazer parte dela! É claro que eu não podia continuar a escrever sobre ela, eu não podia.
Chegou a sexta-feira, completou-se duas semanas que não a via. Decidi sair pra algum barzinho da cidade, me distrair um pouco. Dei algumas voltas, nada me chamava a atenção. Achei um bar que tocava covers de rock dos anos 80, decidi arriscar. Encontrei uma mesa, me acomodei e pedi uma cerveja. A banda começou a tocar alguns minutos depois. Percebi que a vocalista era mulher, o que me chamou atenção. Sempre me interessei e tive preferência por vocais femininos. Corri meu olhar pelo local até o palco, e a vi agarrada a um violão, cantando.
Tentei evitar meu olhar até ela novamente. Curti minha noite, conversei com algumas pessoas e fui embora acompanhada. Ela assistiu tudo de camarote (supondo que ela tenha me visto, me reconhecido, e me acompanhado – uma garota pode sonhar). Tudo correu bem durante o resto da noite, Amanda (a menina que levei pra casa) me chamou pra subir até seu apartamento, tomamos uma cerveja e passei a noite lá. Na manhã seguinte, tomamos café, trocamos telefones e eu fui embora. Direto pr’aquela livraria.

Sem-nome

Prólogo

O problema de se ter uma musa é que, no final, toda história acaba igual e a musa vai embora.

O ideal seria abstrair suas criações, generalizar sentimentos e não pré-definir a história baseada em alguma musa qualquer. Por mais que se tente, uma hora, acabam-se rendendo à esse recurso. E infelizmente, ele te faz ser infiel com a história, com o jeito que tudo-deveria-ser. E então, você fica refém de algo imprevisível. E é assim que grandes histórias se perdem no meio do caminho.

Por mais que você tente abstrair, você sempre acaba escrevendo sobre suas emoções e nem sempre (eu diria nunca) elas são justas com o rumo que a história deveria seguir. Ou pior: justas com você.